- Entrevista

Melhores Verdades
Folha de S. Paulo – SP, 12/09/2004,
Sérgio Lima/Folha Imagem

 

Pesquisador exibe vagem com graos de soja transgenica na sede da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Brasília

Filósofo e antropólogo frances Bruno Latour diz em entrevista que cientistas nao devem fazer distinçao entre fato e valor e que exigencia de prover dados sem interpretá-los é culpada pelo fracasso da ciencia e do poder público na discussao dos transgenicos

Marcelo Leite
colunista da Folha

Bruno Latour é uma figura difícil classificar. Nao é tarefa simples estabelecer se jamais foi moderno ou se mergulhou direto de maio de 1968 nas águas da pós-modernidade. Seus livros, vários deles editados no Brasil (como o recente "As Políticas da Natureza", Edusc, R$ 55), costumam despertar ojeriza nos cientistas naturais, que mesmo sem le-los identificam no filósofo e antropólogo frances um dos arcebispos da religiao desconstrucionista. Se parassem para meditar sobre os seguidos tropeços públicos das biotecnologias, no entanto, esses pesquisadores teriam uma ou duas coisas a aprender com Latour, que de arcebispo nao tem nada. Profeta, talvez. Latour escreveu livros incômodos, como "Vida de Laboratório" e "Ciencia em Açao", e parece comprazer-se em nunca dizer o que o interlocutor dele espera ouvir. No congresso de estudos de ciencia e tecnologia que organizou em Paris no final de agosto, por exemplo, nao havia a habitual sessao de pôsteres em que estudantes ficam plantados ao pé dos mesmos. Resultado: mais de uma centena de sessoes espalhadas por dezenas de salas na tradicional escola de engenharia e no Liceu Saint Louis, ambos no bulevar Saint-Michel e vizinhos do Jardim de Luxemburgo. Com exceçao de uma sessao solene na sede do Senado da República, no Palácio de Luxemburgo, nao houve plenárias. Os títulos das sessoes se revelavam quase tao inusitados quanto a cor laranja das bolsas distribuídas pelos organizadores. De robôs sociais r politizaçao do software e da cartografia das invençoes científicas r etnografia do código aberto, havia de tudo, para todos. O tema central do congresso conjunto da Sociedade para Estudos Sociais da Ciencia (SSSS, ou 4S) e da Associaçao Européia de Estudos Sociais de Ciencia (Easst) era, afinal, abrangente o bastante: "Provas públicas: Ciencia, tecnologia e democracia". Os transgenicos sao um prato cheio para esse tema, pois tornam manifesto que a pesquisa científica é uma prática social, que ela mobiliza paixoes e valores arraigados, que nem tudo nela sao razoes objetivas e capturáveis por meio de um desenho inteligente de experimentos. Trata-se da primeira controvérsia científica globalizada, em realidade, como percebeu Bruno Latour: "Há uma Guerra Mundial dos OGMs [organismos geneticamente modificados]", diz o frances, "que é interessante precisamente porque nao há mortes". Quando muito, uma erosao contínua da confiança nos especialistas, tema que de resto já penetrou até a sociologia mais comportada, ou nada francesa, de um Anthony Giddens e de um Ulrich Beck. Enganam-se, contudo, os cientistas naturais que virem em Latour um inimigo. Ele tem perceptível simpatia pelas agruras que estao vivendo com a querela dos OGMs, como deixa claro na entrevista a seguir. Segundo seu diagnóstico, para a irresoluçao dessa controvérsia contribuem falhas tanto dos protagonistas da esfera pública quanto dos pesquisadores, mas estes ao menos podem alegar que estao submetidos a um duplo vínculo, como diz o intelectual frances, a uma exigencia contraditória prover fatos sem já interpretá-los: "Por favor, nada de nos dizer o que devemos fazer, mas, se também puderem nos dizer o que devemos fazer, seria bom". Existe uma longa tradiçao de trânsito entre tais exigencias, no que Latour chama de Teatro da Prova, do pendulo de Foucault ao anel de borracha de vedaçao do ônibus espacial Challenger que Richard Feynman mergulhou num copo de água gelada: a necessidade, tanto para testemunhos políticos quanto para os científicos, de oferecer provas de uma maneira pública, convincente e dramática. "Melhores verdades", enfim, como pediu na abertura. Pode-se discordar de Latour em muitas coisas, mas é difícil deixar de perceber que suas idéias multicoloridas tem mais de construtivas do que de desconstrucionistas, como se pode ver na entrevista abaixo, concedida nos jardins da Escola de Minas no dia 26 de agosto, horas antes da cerimônia oficial no Senado:

 

Um dos principais debates públicos sobre ciencia, hoje, é o dos organismos geneticamente modificados (OGMs), que nao progride. Cientistas estao dispostos a tomar parte no debate, mas só como se estivessem entre pesquisadores. Há de fato resistencia ao diálogo, a encontrar um modo novo de participar do debate público?

 

Eles estao certos, num certo sentido, por estarem preocupados. Ainda nao se formou uma alternativa para o papel clássico do cientista de ensinar, fazer pesquisa ou aconselhar políticos. Em outras palavras, quando há hesitaçao sobre um novo regime, é melhor apegar-se ao velho. Pelo menos tem a vantagem principal de proteger a sua autonomia, que de outro modo é com freqüencia ameaçada por outros interesses. A alternativa é muito difícil porque envolve nao só mudar o modo com que os cientistas fazem as coisas, mas também o que se pede a eles que façam. É uma espécie de duplo vínculo: de um lado, eles sao chamados a dar testemunho como "experts" -e eu acho que pedir a um cientista que se torne um "expert" é uma espécie de traiçao r missao da ciencia-, e simultaneamente a nos dizer quais sao os fatos. Ou seja: por favor, nada de nos dizer o que devemos fazer, mas, se também puder nos dizer o que devemos fazer, seria bom. O que eu proponho nesse livro ["As Políticas da Natureza"] é que nós organizemos essas posiçoes com uma diferenciaçao entre as habilidades de cientistas, políticos, economistas, pessoal de mídia e assim por diante, e suas funçoes. Fazer uma distinçao entre os domínios em que eles sao chamados a atuar e as suas habilidades, porque há um mal-entendido aí. As pessoas acham que as habilidades dos cientistas sao também o seu domínio, que é separado do resto. Nao, [na realidade] sao as habilidades que sao diferentes, mas o domínio é o mesmo. É o mesmo que construir uma casa, em que há carpinteiros, eletricistas, encanadores -eles nao estao construindo várias casas diferentes, uma do encanador, outra do eletricista, mas trabalhando no mesmo prédio.

 

Eles estao contribuindo com habilidades diferentes para a tarefa comum, é isso?

 

Sim. O problema é manter a diferença, e o temor dos cientistas correto, no meu entender - é que eles nao querem ser confundidos com políticos, com advogados, porque nao sabem como proceder. E estao certos! As habilidades sao diferentes, a do encanador nao é a mesma do eletricista. Mas o que é esse prédio que temos de construir? Essa é a questao a fazer. O prédio é o "cosmos" comum, para usar a velha expressao grega. No caso dos OGMs: política internacional, subsídios, aspectos legais, ecologia da dispersao de genes, onde encontrar experimentos que sejam públicos e convincentes, e assim por diante. É uma reuniao muito grande. Assim, se eles dizem: "Ah, nós nao queremos ter nada a ver com a construçao do mundo comum, nao é o nosso papel", aí estao errados, porque nao estariam querendo que sua ciencia tenha sucesso. Mas, quando dizem: "Sem uma alternativa, preferimos nos apegar a nossa definiçao de autonomia", nesse caso eu penso que eles estao certos.

 

Essas coisas rs vezes se misturam. Os pesquisadores brasileiros nao aceitam, por exemplo, que se modifiquem os poderes da Comissao Técnica Nacional de Biossegurança [CTNBio], pois dizem que a decisao deve ser estritamente técnica. Isso nao é uma maneira de tentar circunscrever o debate?

 

Isso é algo fácil de resolver, ainda que nao o seja na prática. O fato é que a distinçao está fazendo um corte no lugar errado, separando os dois papéis que os cientistas deveriam ter, mas lhes atribuindo ambos: a certeza sobre os fatos e a incerteza sobre os fatos. Com os valores é a mesma coisa. O que eu proponho é um corte noutro sentido. De fato, há duas funçoes a serem realizadas, que sao muito diferentes; a casa a ser construída de fato é feita de coisas diversas. Uma é quais entidades tem de ser levadas em conta. É preciso pensar sobre fluxo genico, sobre leis, sobre isso e aquilo, sobre o número de elementos que vao entrar na reuniao, que devem ser recrutados e aceitos sem serem simplificados. E há também uma segunda tarefa: como ordenar, ou compor, esses diferentes institutos, num mundo comum. E isso é algo completamente diferente da distinçao entre fato e valor. O modo com que os cientistas continuam mantendo a distinçao fato-valor é inteiramente contraproducente, porque ao proceder assim eles estao disparando contra o próprio pé. Essa é uma casa de todos. Nao é só uma questao de saber se os genes fluem do campo de um agricultor para o de outro, mas se esse agricultor quer ter a Monsanto como seu patrao. Essa segunda questao é exatamente tao importante [quanto a primeira]: ela teria de ser provada, demonstrada, deveria haver meios de ser decidida. Os OGMs sao interessantes porque nao sao perigosos, precisamente porque quase nao tem perigo comprovado. É uma questao de soberania.

 

Mas por que, entao, se tornaram uma questao tao grande, se nao sao perigosos?

 

Por causa do que Michel Callon [do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, EUA] disse esta manha: antes dessa nova configuraçao, a saúde era a única maneira de criar uma dificuldade. As pessoas diziam: desde que nao sejam perigosos, nós aceitamos. Deveria ser permitido dizer: nao é perigoso, nao é um problema de saúde, mas nós simplesmente nao queremos! É uma questao de soberania, qual o mundo que queremos ter. É perfeitamente legítimo decidir assim o que nao quer dizer que seja a decisao correta. É legítimo, desde que as outras funçoes dessa reuniao tenham sido respeitadas, o processo devido ["due process"]. Nesse caso, nao há absolutamente razao alguma para justificar sua imposiçao. Pessoalmente, nao ligo a mínima. Acho os OGMs perfeitamente OK. Mas deveria ser possível dizer: nao é perigoso, nao é um problema de saúde, mas mesmo assim é uma questao de "cosmos", de arranjo, de paisagem, de beleza, de valores. Há muitas outras coisas. No caso dos OGMs, a questao principal é o vínculo entre a empresa e os plantadores, é uma questao de autoridade. Quando se considera o debate sobre os OGMs entre a Europa e os Estados Unidos, é claramente uma questao de soberania. Os europeus dizem: nós aplicamos o princípio da precauçao. É nosso direito ser soberanos. E os outros dizem, o que nao é um mau argumento, tampouco: entao é um obstáculo técnico ao livre comércio. O Brasil também está nessa disputa, por outras razoes. Quando a soberania retorna, o debate se torna de novo politicamente interessante, pois nao se trata de saúde. Quando a saúde está em causa, nao se pode dizer que se vai fazer alguma coisa que seja perigosa para a saúde. OK, nao é perigoso para a saúde o que fazemos, entao? Temos de decidir! É uma espécie de retomada da necessidade e de uma chance para a soberania. É um debate muito interessante. Penso que há uma Guerra Mundial dos OGMs, que é interessante precisamente porque nao há mortes. A disputa sobre algodao transgenico também é muito interessante, na Índia. De novo, diz-se que é muito útil, mas é um algodao bom ou ruim? Se os camponeses nao forem ouvidos, nao se pode decidir se é bom ou ruim. Os cientistas estao certos em ficar desconfiados, porque nao há ainda uma nova identidade. O dever de pessoas como nós, da sociedade, é tentar encontrar essas alternativas.

O sr. está otimista quanto a isso? Há alguma saída para esse impasse?

Bem, há 1.200 pessoas aqui [na conferencia].

 

Mas como transformar todas essas discussoes em algo institucional, em procedimentos? Essa é a questao. Faz alguma diferença se somos 1.200, e nao 12. Hoje temos defensores do princípio de precauçao na Comissao Européia. Faz alguma diferença? Pequena, mas toda diferença é pequena... 12.000 seria ainda melhor. Eu fico impressionado com o fato de que aquilo que nós víamos agora está ficando óbvio para muitos, mas eles ainda nao pensaram sobre isso. A maneira oficial de representar ciencia ainda é de 60, 100, 200 anos atrás, porque ninguém presta atençao aos cientistas. Quando os argumentos sao apresentados aos cientistas calmamente, fora das ruas, eles dizem que sim, claro, é isso mesmo. É uma questao de bom senso.

 


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