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Opinião de Miguel Altieri
Universidade da California, Berkeley

Os Mitos da Biotecnologia Agrícola: Algumas Considerações Éticas

Miguel Altieri
Universidade da California, Berkeley

Durante anos os acadêmicos supuseram que a agricultura não representa um problema especial para a ética ambiental, apesar do fato de que a vida e a civilização humanas dependem da artificialização intencional da natureza para levar a cabo a produção agrícola. Até os críticos dos impactos ambientais dos pesticidas e das implicâncias sociais da tecnologia agrícola não puderam conceituar uma ética ambiental coerente, aplicável aos problemas agrícolas. Em geral, a maior parte dos defensores da agricultura sustentável, condicionados por um determinismo tecnológico, carecem de um entendimento das raízes estruturais da degradação do meio ambiente ligada à agricultura capitalista. Por tanto, ao aceitar a atual estrutura socioeconômica e política da agricultura como algo estabelecido, muitos profissionais se viram limitados na tentativa de implementar uma agricultura alternativa que realmente desafie tal estrutura . Isto é preocupante, especialmente hoje que as motivações econômicas, mais que as preocupações sobre o meio ambiente, determinam o tipo de pesquisa e as modalidades de produção agrícola que prevalecem em todo o mundo.

Por isto, sustentamos que o problema chave que os agroecologistas devem enfrentar, é que a moderna agricultura industrial, se funda em premissas filosóficas fundamentalmente falsas e que precisamente essas premissas necessitam ser expostas e criticadas para que possamos avançar em direção a uma agricultura verdadeiramente sustentável. Isto é particularmente relevante no caso da biotecnologia, onde a aliança da ciência reducionista com uma industria multinacional monopolizada, que conjuntamente percebem os problemas agrícolas como simples deficiências genéticas dos organismos levarão, novamente a agricultura por uma rota equivocada.

O objetivo deste trabalho é contestar as falsas promessas feitas pela industria da engenharia genética, que alega que livrará a agricultura da dependência dos insumos químicos, que incrementará sua produtividade e que também diminuirá os custos dos insumos, ajudando a reduzir os problemas ambientais. Ao nos opormos aos mitos da biotecnologia, damos a conhecer o que a engenharia genética realmente é: outra "solução mágica" destinada a esconder os problemas ambientais da agricultura, sem questionar as falsas suposições, que criaram os problemas em primeiro lugar.

A biotecnologia desenvolve soluções monogênicas para problemas que derivam de sistemas de monocultivo ecologicamente instáveis, desenhadas sobre modelos industriais de eficiência. Já foi provado que tal enfoque unilateral não foi ecologicamente confiável no caso dos pesticidas.

Questionamento Ético da Biotecnologia

As críticas ambientalistas à biotecnologia questionam as suposições de que a ciência da biotecnologia está livre de valores e que não pode estar equivocada ou mal utilizada, e pedem uma avaliação ética da pesquisa em engenharia genética e seus produtos. Quem defende a biotecnologia é considerado como tendo uma visão utilitária da natureza e defensor da livre troca dos ganhos econômicos pelo dano ecológico, indiferentes ante as conseqüências para os seres humanos No coração das críticas estão os efeitos da biotecnologia sobre as condições sociais e econômicas e os valores religiosos e morais que levam a perguntas como:

Deveríamos alterar a estrutura genética de todos os seres vivos em nome do consumo e do lucro?

É a constituição genética de todos os seres vivos uma herança comum de toda a humanidade, ou pode ser apropriada pelas corporações e, dessa maneira converter-se em propriedade privada de poucos?

Quem deu às companhias o direito de monopolizar grupos inteiros de organismos?

Os biotecnólogos se sentem donos da Natureza? É esta uma ilusão construída sobre a arrogância científica e a economia convencional, cega à complexidade dos processos ecológicos?

É possível minimizar os conceitos éticos e reduzir os riscos ambientais mantendo os benefícios?

Também surgem algumas perguntas específicas sobre a natureza da tecnologia, enquanto se questiona o domínio da agenda da pesquisa agrícola pelos interesses comerciais. A distribuição desigual dos benefícios, os possíveis riscos ambientais e a exploração dos recursos genéticos das nações pobres pelas ricas demandam algumas interrogações mais profundas:

Quem se beneficia da tecnologia? Quem perde?

Quais são as conseqüências para o meio ambiente e a saúde?

Quais são as alternativas desprezadas?

A que necessidades atende a biotecnologia?

Como afeta a tecnologia ao que se está produzindo? como, para que e para quem se está produzindo?

Quais são as metas sociais e os critérios éticos que definem as prioridades da pesquisa biotecnologica?

Biotecnologia para atingir que objetivos sociais e agronômicos?

Os mitos da biotecnologia

As corporações da indústria agroquímica que controlam a direção e os objetivos da inovação agrícola por meio da biotecnologia sustentam que a engenharia genética melhorará a sustentação da agricultura resolvendo os problemas que afetam o manejo agrícola convencional e livrarão os agricultores do terceiro mundo da baixa produtividade, da pobreza e da fome.

Comparando o mito com a realidade, os parágrafos seguintes descrevem como e porque os avanços atuais da biotecnologia agrícola não conseguem atender tais promessas e expectativas.

Mito 1:

A biotecnologia beneficiará os agricultores dos EE.UU. e do mundo desenvolvido.

A maioria das inovações em biotecnologia agrícola são motivadas por critérios econômicos e não por necessidades humanas, por tanto a finalidade da indústria da engenharia genética não é resolver problemas agrícolas e sim obter lucros. Mais ainda, a biotecnologia busca industrializar a agricultura em maior grau e intensificar a dependência dos agricultores en insumos industriais, ajudados por um sistema de direitos de propriedade intelectual que inibe legalmente os direitos dos agricultores de reproduzir, trocar e armazenar sementes. Ao controlar o germoplasma desde a semente até a venda e forçar os agricultores a pagar preços inflados pelas sementes químicas, as companhias estão dispostas a obter o maior retorno de seus investimentos.

Devido ao fato de que a biotecnologia requer grandes volumes de capital, ela continuará condicionando o padrão de mudança da agricultura nos Estados Unidos, aumentando a concentração da produção agrícola em mãos das grandes corporações. Como no caso de outras tecnologias que economizam mão de obra, ao aumentar a produtividade, a biotecnologia tende a reduzir os preços dos bens e a por em marcha uma maquinaria tecnológica que deixa fora do negócio um número significativo de agricultores, especialmente de pequena escala. O exemplo do hormônio de crescimento bovino confirma a hipótese de que a biotecnologia acelerará o desaparecimento das pequenas propriedades leiteiras.

Mito 2:

A biotecnologia beneficiará os pequenos agricultores e favorecerá os famintos e os pobres do terceiro mundo.

Se a Revolução Verde ignorou os agricultores pequenos e de recursos escassos, a biotecnologia exacerbará ainda mais a marginalização porque tais tecnologias, que estão sob controle de grandes corporações e protegidas por patentes, são custosas e inapropriadas para as necessidades e circunstâncias dos grupos indígenas e camponeses. Já que a biotecnologia é uma atividade principalmente comercial, esta realidade determina as prioridades de que pesquisar, como se aplica e a quem beneficiará. Enquanto isso, o mundo carece de alimentos e sofre com a contaminação por pesticidas, o foco de interesse das corporações multinacionais é o lucro, não a filantropia. Esta é a razão pela qual os biotecnólogos projetam cultivos transgênicos para novos tipos de mercado ou para substituição das importações, em lugar de buscar maior produção de alimentos. Em geral, as companhias de biotecnologia dão ênfase a um universo limitado de culturas para as quais há mercados grandes e seguros, dirigidas a sistemas de produção de grandes capitais. Como as culturas transgênicas são de plantas patenteadas, isto significa que os camponeses podem perder os direitos sobre seu próprio germoplasma regional e não lhes será permitido, segundo o GATT, reproduzir, trocar ou armazenar sementes de sua colheita. É difícil conceber como se introduzirá este tipo de tecnologia nos países do terceiro mundo de modo a favorecer às massas de agricultores pobres. Se os biotecnólogos estivessem realmente comprometidos em alimentar o mundo, porque os gênios da biotecnologia não se dedicam a desenvolver novas variedades de cultivos mais tolerantes a pragas em vez dos herbicidas? Ou porque não se desenvolvem produtos mais promissores de biotecnologia como plantas fixadoras de nitrogênio ou tolerantes à seca?

Os produtos da biotecnologia debilitarão as exportações dos países do terceiro mundo, especialmente dos produtores de pequena escala. O desenvolvimento, via biotecnologia, do produto ¨Thaumatin¨ é apenas o começo de uma transição a edulcorantes alternativos que absorverão o mercado de açúcar do terceiro mundo no futuro . Se estima que em torno de 10 milhões de plantadores de cana de açúcar no terceiro mundo poderão perder seu sustento quando os adoçantes processados em laboratório começarem a invadir os mercados mundiais. A frutose produzida pela biotecnologia já capturou cerca de 10% do mercado mundial e causou a queda dos preços do açúcar, deixando sem trabalho centenas de milhares de trabalhadores. Mas essa limitação das oportunidades de trabalho no meio rural não se limita aos adoçantes. Aproximadamente 70.000 agricultores produtores de baunilha em Madagascar ficaram arruinados quando uma firma do Texas passou a produzir baunilha em seus laboratórios de biotecnologia. A expansão do cultivo de palmeiras oleaginosas clonadas, pela Unilever incrementarão de maneira substancial a produção de óleo de palma com dramáticas conseqüências para os agricultores que produzem outros tipos de óleos vegetais (de maní no Senegal e de coco nas Filipinas, por exemplo).

Mito 3:

A biotecnologia não atentará contra a soberania ecológica do terceiro mundo.

Desde que os países do norte se deram conta da utilidade ecológica que proporciona a biodiversidade, da qual o Sul é o maior repositório, o terceiro mundo tem sido testemunha de uma "febre genética", na medida em que as corporações multinacionais exploram os bosques, campos de cultivo e costas em busca do ouro genético do sul. Protegidas pelo GATT, estas corporações praticam livremente a ¨biopirataria¨, a qual custa às nações em desenvolvimento, segundo a Fundação para o Progresso Rural (RAFI, em inglês) em torno de US$4.5 bilhões por ano pela perda de receitas das companhias produtoras de alimentos e produtos farmacêuticos, as quais usam o germoplasma e as plantas medicinais dos camponeses e indígenas sem pagar nada.

Está claro que os povos indígenas e sua diversidade são vistos como matéria prima pelas corporações multinacionais, as quais tem ganho bilhões de dólares com sementes desenvolvidas nos laboratórios dos EE.UU. a partir de germoplasma que os agricultores do terceiro mundo melhoraram cuidadosamente por várias gerações. No momento, os camponeses não são recompensados por seu milenar conhecimento, enquanto as corporações multinacionais começam a obter lucros nos países do terceiro mundo estimados em bilhões de dólares. Até agora as companhias de biotecnologia não recompensaram, de nenhuma maneira, aos agricultores e indígenas do terceiro mundo pelas sementes que tomam e usam.

Mito 4:

A biotecnologia conduzirá á conservação da biodiversidade.

Ainda que a biotecnologia tenha a capacidade de criar uma maior variedade de plantas comerciais e desta maneira contribuir para aumentar a biodiversidade, é difícil que isto aconteça. A estratégia das corporações multinacionais é criar amplos mercados internacionais para a semente de um só produto. A tendência é formar mercados internacionais uniformes de sementes. Além disso, as medidas ditadas pelas corporações multinacionais para fazer parte do sistema de patentes, que proíbe aos agricultores a reutilização da semente que rende suas colheitas, afetará as possibilidades de conservação in situ e o melhoramento genético a nível local.

Os sistemas agrícolas desenvolvidos com cultivos transgênicos favorecerão os monocultivos que se caracterizam por níveis perigosos de homogeneidade genética, os quais conduzem a uma maior vulnerabilidade dos sistemas agrícolas aos stress bióticos e abióticos. Conforme a nova semente produzida por bioengenharia substitua as antigas variedades tradicionais e a suas parentes silvestres, se acelerará a erosão genética. Deste modo, a pressão pela uniformidade não só destruirá a diversidade dos recursos genéticos, como também quebrará a complexidade biológica que condiciona a sustentabilidade dos sistemas agrícolas tradicionais

Mito 5:

A biotecnologia não é ecologicamente daninha e dará origem a uma agricultura sustentável, livre de químicos.

A biotecnologia está se desenvolvendo para superar os problemas causados por tecnologias anteriores com agroquímicos (resistência aos pesticidas, contaminação, degradação do solo, etc.) os quais foram promovidos pelas mesmas companhias que agora são líderes da bio-revolução. As culturas transgênicas desenvolvidas para o controle de pragas seguem fielmente o paradigma dos pesticidas de usar apenas um mecanismo de controle, que tem falhado uma vez ou outra com insetos, patologias e pragas . Os cultivos transgênicos tendem a incrementar o uso dos pesticidas e acelerar o desenvolvimento de ¨ super pragas ¨ e gerações de insetos resistentes. O enfoque ¨ um gene resistente - menos uma praga ¨ foi superado facilmente pelas pragas, as quais se adaptam continuamente a novas situações e desenvolvem mecanismos de resistência.

Existem muitas perguntas ecológicas sem resposta referentes ao impacto da liberação de plantas e microorganismos transgênicos no meio ambiente. Entre os principais riscos associados com as plantas obtidas por engenharia genética estão a transferência não intencional dos ¨ transgenes ¨ a parentes silvestres das culturas e os efeitos ecológicos imprevisíveis que isto implica.

Pelas considerações mencionadas, a teoria agroecológica prevê que a biotecnologia exacerbará os problemas da agricultura convencional e ao promover os monocultivos também impedirá o uso de métodos ecológicos de manejo agrícola tais como a rotação de culturas e os policultivos. Como está concebida, atualmente, a biotecnologia não se adapta aos ideais amplos de uma agricultura sustentável.

Mito 6:

A biotecnologia melhorará o uso da biologia molecular para beneficio de todos os setores da sociedade.

A demanda pela nova biotecnologia não surgiu como resultado de demandas sociais e sim de mudanças nas leis de patentes e a sede de lucro das companhias químicas. O produto surgiu a partir dos avanços sensacionais da biologia molecular e da disponibilidade de capitais aventureiros para arriscar, como resultado de leis favoráveis de impostos. O perigo está em que o setor privado está influindo na condução das pesquisas do setor público de uma forma sem precedentes.

À medida que mais universidades e instituições públicas de pesquisa se associem com as corporações, aparecem questões éticas mais serias sobre quem é dono dos resultados da pesquisa e que pesquisas devem ser feitas. A tendência a guardar segredo dos pesquisadores universitários envolvidos em tais sociedades leva à colocação de perguntas sobre ética pessoal e sobre conflitos de interesses. Em muitas universidades, a habilidade de um professor para atrair investimentos privados é, a miude, mais importante que suas qualificações acadêmicas, eliminando os incentivos para que os cientistas sejam responsáveis perante a sociedade. Áreas como controle biológico e a agroecologia, que não atraem o apoio corporativo, estão sendo deixadas de lado e isto não favorece o interesse público.

Conclusões

Em fins dos anos 80, uma publicação da Monsanto indicava que a biotecnologia iria revolucionar a agricultura no futuro com produtos baseados nos métodos próprios da natureza, fazendo com que o sistema agrícola seja mais amigável para com o meio ambiente e mais proveitoso para o agricultor. Mais ainda: seriam disponibilizadas plantas com defesas genéticas incorporadas contra insetos e pragas. Desde então, muitos outros tem prometido várias outras recompensas que a biotecnologia pode presentear através do melhoramento de cultivos. O dilema ético é que muitas destas promessas são infundadas e muitas das vantagens ou benefícios da biotecnologia não puderam ser feitos realidade. Ainda que seja claro que a biotecnologia pode vir a ajudar a melhorar a agricultura, dada sua atual orientação, a biotecnologia promete mais danos ao meio ambiente, uma maior industrialização da agricultura e una intromissão mais profunda de interesses privados na pesquisa do setor público. Até agora o domínio econômico e político das corporações multinacionais da agenda de desenvolvimento agrícola tem tido êxito a expensas dos interesses dos consumidores, camponeses, pequenas propriedades familiares, a vida silvestre e o meio ambiente.

É urgente que a sociedade civil tenha já uma maior participação nas decisões tecnológicas para que o domínio exercido pelos interesses corporativos sobre a pesquisa científica seja balanceado por um controle público mais estreito. As organizações públicas nacionais e internacionais tais como FAO, CGIAR, etc., terão que monitorar e controlar para que os conhecimentos aplicados não sejam propriedade do setor privado, para garantir que tal conhecimento continue sob domínio público para beneficio das sociedades rurais. Devem ser desenvolvidos sistemas de controle, sob comando da sociedade, e empregá-los para monitorar e avaliar os riscos sociais e ambientais dos produtos da biotecnologia.

Finalmente, as tendências a uma visão reducionista da natureza da agricultura promovida pela biotecnologia contemporânea deve ser revertida e substituída por um enfoque mais holístico da agricultura, para assegurar que as alternativas agroecológicas não sejam ignoradas e que só se investiguem e desenvolvam aspectos biotecnológicos que sejam ecologicamente aceitáveis. Chegou o momento de enfrentar, efetivamente, o desafio e a realidade da engenharia genética. Como aconteceu com os pesticidas, as companhias de biotecnologia devem sentir o impacto dos movimentos ambientalistas, de trabalhadores e de camponeses, de modo que reordenem seu trabalho para beneficiar toda a sociedade e a natureza. O futuro das pesquisas baseadas na biotecnologia estará determinado por relações de poder e não há razão para que os agricultores e o público em geral, através das organizações da sociedade, não possam influir no direcionamento dessas pesquisas de forma a garantir o cumprimento das metas de auto-sustentação.

Tradução: José Arruti Mendez

Opinião de Thomas Ludewigs
Estudante de doutorado - Ciências Ambientais - Univ. de Indiana - EUA

A crítica que faço ao artigo da Dra. Lúcia, sobre a introdução da soja transgênica no Brasil, não é especificamente sobre o tema do artigo (soja transgênica) e sim sobre o que a pesquisadora declara a respeito da agricultura orgânica. A meu ver, ela está equivocada, pois basta ir a qualquer mercado de produtos orgânicos aqui em Bloomington - IN - EUA (cito a cidade em que moro, mas poderia citar muitas outras nos EUA), comprá-los e consumi-los, para constatar que tem um sabor muito superior aos alimentos produzidos convencionalmente. Isso é especialmente válido para frutas como maçã, pera, pêssego, morangos (e muitas outras) e legumes/verduras como tomate, cebola, alho, etc... Como não estou a par dos avanços científicos em agricultura ecológica (nem saúde humana), não posso contestar a afirmação da Dra. Lúcia de que agricultura orgânica não seja mais saudável com bases científicas. Posso argumentar, como agrônomo, que quando o tecido de uma planta contêm nitrato em concentrações altas, mais água é necessária para a manutenção do equilíbrio osmótico. A agricultura orgânica promove a absorção gradual de nitrato pela planta, e não concentrada como acontece com o uso desbalanceado de adubos solúveis, o que justifica menor concentração nos tecidos. Isso explica o fato de alimentos orgânicos serem menos "aguados" que os convencionais e muito mais saborosos (provavelmente mais saudáveis tb, uma vez que não possuem resíduos de agrotóxicos nem mesmo excesso de N). Todos sabem disso por aqui, o que justifica alimentos mais saborosos serem vendidos a preços mais elevados (até mesmo quem defende GMO sabe que alimentos orgânicos tem melhor sabor). De outra forma, como explicar o crescimento exponencial de produtos orgânicos nos mercados dos EUA e Europa ? Acho que estudos científicos que comprovem a superioridade dos produtos orgânicos não são facilmente conduzidos (o que não implica na sua não-existência), uma vez que existem uma série de fatores exógenos e endógenos ao ser humano que precisariam ser controlados, como por exemplo: Exógenos: tipo de cultivo, manejo (o que incluiria tipos, número de aplicações, datas e concentrações de pesticidas/ fertilizantes no caso de convencionais ou de produtos alternativos no caso de orgânicos), condições ambientais, processamento pós-colheita, etc... e endógenos (paladar, algumas pessoas apresentam tolerância maior à toxinas que outras, efeito acumulativo no corpo humano (muito ainda não se sabe sobre isso), interações com sintomas provocados por outros processos fisiológicos como intolerâncias, alergias, etc...). Com relação às bio-toxinas que a Dr. Lúcia menciona em produtos orgânicos, acho que ela novamente está confudindo as coisas. Não acredito que alimentos orgânicos, quando bem selecionados e consumidos frescos possam oferecer perigo de contaminação por fungos ou bactérias maior que em alimentos convencionais (aflatoxinas no amendoim ou botulismo no palmito, por exemplo, estão na verdade muito mais relacionados ao modo de processamento pós-colheita, de transporte, e ao respeito aos prazos de validade do que com o fato de serem produzidos organicamente ou não). O que parece ser um problema sério à saúde humana, e que vem aparecendo com cada vez maior frequência aqui nos EUA, é a resistência que muitos patógenos humanos vêm desenvolvendo aos antibióticos tradicionalmente usados para curar várias doenças, fazendo com que doses cada vez maiores venham a ser usadas, e nem isso adianta em muitos casos. Como explicar a não efetividade de antibióticos em pessoas que possuem histórico limitado de uso dessas substâncias ? Óbvio: os antibióticos, bem como hormônios, pesticidas e sabe Deus lá o quê estão presentes na alimentação. Frangos de granja recebem antibióticos diariamente em sua dieta, como “preventivo” à ocorrência de doenças. Vacas leiteiras são tratadas com hormônios, bem como bois de engorda. E por aí vai.

Acho que vocês não deveriam publicar artigos que manifestam pontos de vista tão radicais (e equivocados) como o da Dra. Lúcia com relação á agricultura orgânica. Deveriam é reconhecer que a agricultura orgânica promove, além dos benefícios ambientais e na qualidade final dos produtos, o fortalecimento da agricultura familiar no país e no mundo, possibilitando ao pequeno produtor competir com empresas de grande porte a partir de produtos diferenciados. Sendo o Brasil um dos países onde a desigualdade social é maior no mundo, prioridade deveria ser dada no fortalecimento da agricultura familiar, e não na promoção de mais dependência como a promovida pelo “exterminator gene” da soja RR da Monsanto.

Com relação ás causas da fome no mundo, me desculpem, mas não consigo acreditar que seja a escassez de alimentos. Antes disso, acho que temos que combater a distribuição desigual e ineficiente e o disperdício de alimentos no Brasil e no mundo.

Atenciosamente,
Thomas Ludewigs
Estudante de doutorado
Ciências Ambientais
Faculdade de Estudos Públicos e Ambientais
Univ. de Indiana - EUA


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